Vidas evangélicas também importam

Por que a maior religião dos pobres afrodescendentes é ignorada e atacada por tantos brasileiros brancos escolarizados?

Em outubro do ano passado eu publiquei um livro — Povo de Deus: Quem são os evangélicos e por que eles importam (Geração Editorial) — apresentando aquilo que é lugar-comum para sociólogos e antropólogos que estudam religião: que entrar para a igreja evangélica melhora as condições de vida dos brasileiros mais pobres. Uma das motivações para escreve-lo foi entender por que a religião de um a cada três brasileiros — especialmente de pretos e pardos pobres — é um assunto praticamente ignorado pela elite escolarizada — predominantemente branca — do Brasil?

Foto: Juliano Spyer. Direitos reservados.

Além de não se interessarem pelo tema, intelectuais, formadores de opinião, jornalistas e pessoas com maior escolaridade em geral expressam desprezo pelos evangélicos em conversas privadas. E descrevem genericamente esses 68 milhões de brasileiros, de forma simplista e desinformada, como sendo fanáticos defensores do presidente ultraconservador Jair Bolsonaro, mercadores da fé ou como intolerantes que atacam espaços de culto das religiões de matriz afro como o candomblé e a macumba. Ao evocar uma imagem caricata e ingênua de “evangélicos”, sugere-se que o problema a ser combatido seja a religião e não o posicionamento de certas lideranças religiosas. E eventualmente os críticos cometem o mesmo tipo de incitação ao preconceito que eles acusam evangélicos de cometer.

O racismo hoje é um tema amplamente debatido no Brasil hoje, em função do tamanho da população afrodescendente, do racismo que perdura nas relações sociais e mais recentemente pelos debates abertos nos Estados Unidos em decorrência do movimento Black Lives Matter. Dada a relação de proximidade entre afrodescendentes e evangélicos, entre evangélicos e pobreza, apresentarei a seguir alguns dos motivos que levam o brasileiro pobre a se converter para o protestantismo, e explicar, a partir da literatura antropológica, por que isso incomoda inclusive pessoas que defendem pautas progressistas.

“Quem é você pra dizer isso?”

Este texto resume alguns dos argumentos principais apresentados do meu livro Povo de Deus, publicado no final de 2020. O livro resulta de uma pesquisa acadêmica: eu vivi e trabalhei durante 18 meses em um bairro pobre na área metropolitana da cidade de Salvador, na região Nordeste, a mais pobre do país, onde está a maior parte da população de brasileiros negros e partos. Essa experiência abriu a oportunidade para eu conhecer, me tornar amigo e conviver com evangélicos e participar de seus cultos regularmente.

A minha pesquisa aconteceu em uma das muitas periferias urbanas em que as igrejas evangélicas se multiplicaram e continuam crescendo. Nessa investigação, observei as consequências da fé e do convívio entre evangélicos comuns nas igrejas locais. Meu interesse por esse fenômeno foi examinar as consequências do cristianismo evangélico para a mobilidade social, ou seja, examinar as consequências da conversão para a melhora das condições de vida de pessoas e de suas famílias. Por isso, este artigo não trata de temas como a relação de igrejas com a política no nível local nem no nível nacional.

Não sou especialista em antropologia da religião, mas a importância crescente desse tema no Brasil, suas consequências principalmente no âmbito da política e do governo, associado à ausência de livros atualizados acessíveis ao leitor que não é cientista social, me motivaram a estudar e escrever sobre esse assunto. Para escrever Povo de Deus, usei meus dados coletados na pesquisa de campo como ponto de partida para apresentar os principais estudos sobre cristianismo evangélico publicados por cientistas sociais do Brasil e de outros países. A ambição foi prover o leitor com uma visão perspectiva sobre esse fenômeno, desde que que ele criou raízes aqui há mais de 150 anos.

O boom do protestantismo

O protestantismo chegou ao Brasil no século 19 e mesmo o pentecostalismo, o ramo mais popular atualmente, já havia chegado ao país desde 1910. Desde o início as camadas populares se interessaram por essa alternativa religiosa. A antropóloga Clara Mafra explica que na missa católica no século 19, brasileiros pobres eram constantemente lembrados de sua condição de cidadãos de segunda categoria porque era esperado que cedessem seus lugares para as pessoas importantes da sociedade. Assim, as primeiras igrejas protestantes atraíam trabalhadores urbanos por contradizerem a lógica segregacionista que separava “cultos” e “ignorantes”.

Mas o crescimento exponencial desse fenômeno aconteceu em meio ao que o antropólogo Gilberto Velho classificou como o principal fenômeno social do Brasil no século 20: a migração de dezenas de milhares de brasileiros das áreas rurais do Nordeste para as capitais do Sul e do Sudeste desde o fim dos anos 1940. Expulsos da terra, de suas tradições esse distanciando de vínculos familiares, eles se estabeleceram em áreas periféricas praticamente sem serviços governamentais e também sem igrejas católicas para exercer sua religião.

Ao examinar o mesmo contexto, o sociólogo inglês David Martin caracteriza a “explosão do protestantismo” na América Latina na década de 1980 como uma “religião dos pobres” em sociedades onde a Igreja Católica estava frequentemente enraizada no conservadorismo social das elites políticas e econômicas. O principal foco de interesse eram as igrejas pentecostais, um ramo novo do protestantismo criado por missionários afrodescendentes na Califórnia. Martin descreve o pentecostalismo como uma religião “pregada em linguagem simples, com exemplos simples, por pessoas simples para pessoas simples”.

A religião das periferias

Notamos que o cristianismo evangélico é um fenômeno das camadas populares no Brasil entrando em um bairro pobre. Nesses locais as igrejas evangélicas estão por todas as partes, e estão presentes desde as mais denominações tradicionais como as do ramo protestante histórico como batistas, metodistas e presbiterianos, passando por adventistas e testemunhas de Jeová, até as mais populares hoje, que são pentecostais. Em cada periferia brasileira encontramos representantes dos cinco séculos de experimentos protestantes, com características comuns e também muitas diferenças.

O principal grupo religioso na localidade em que eu morei durante a pesquisa era de pentecostais, mas as principais denominações histórias estavam presentes. Católicos e representantes das religiões de matriz africana eram minoritários. As maiores igrejas evangélicas do bairro tinham templos próprios e capacidade para abrigar aproximadamente 400 fiéis durante os cultos, e ocupam espaços nobres na rua principal do bairro. Estas geralmente representam organizações conhecidas como a Assembleia de Deus ou a Igreja Universal do Reino de Deus. A Assembleia tinha, além do templo principal no centro do bairro, outras 22 igrejas ligadas a ela espalhadas pela área do bairro, inclusive nas áreas mais afastadas, para facilitar o acesso dos moradores às atividades regulares. As menores, geralmente denominações novas, abrem em garagens alugadas com algumas cadeiras de plástico.

A influência do cristianismo evangélico pode ser percebida também em relação ao número de atividades que suas igrejas oferecem. Em alguns casos, são atividades regulares ao longo da semana, durante manhã, tarde e noite. A Assembleia de Deus, uma das igrejas que eu frequentei e fui acolhido como pesquisador, oferecia grades de programação intensas aos fiéis todos os dias da semana, incluindo cultos com temáticas específicas, cursos de estudo da Bíblia, atividades para adolescentes e jovens, aulas e ensaios aos músicos que acompanham os cultos, ensaios de dança, entre outros.

Vidas mais seguras e disciplinadas

Além da assistência religiosa, as igrejas evangélicas atraem pessoas porque as congregações substituem as redes de apoio que os membros da família estendida as ofereciam originalmente, antes da migração por trabalho. As próprias igrejas, mas também os membros que agem informalmente, podem fornecer alimentos aos seus pares religiosos que passam por necessidades, ajudá-los a encontrar emprego, viabilizar consultas com advogados ou médicos e — como mencionado anteriormente — oferecer atividades (muito desejadas em bairros pobres sem infraestrutura de lazer) para crianças e adolescentes enquanto os pais estão fora trabalhando.

As possibilidades abertas aos convertidos de levarem vidas mais seguras e disciplinadas torna o evangélico um funcionário desejado. Observei isso junto acontecer nos maiores negócios da área onde morei, na costa ao norte de Salvador, conhecida como “Costa dos Coqueiros”. Esses resorts turísticos internacionais funcionam o ano inteiro e têm capacidade para acolher centenas de hospedes ao mesmo tempo. Para incentivas a permanência no emprego de funcionários evangélicos, alguns dos principais hotéis abriam salas para a realização de cultos aos funcionários evangélicos que trabalham no período noturno ou nos finais de semana.

Entre várias as consequências positivas da adoção do cristianismo evangélico nos bairros pobres brasileiros — que apresento em detalhes no livro — estão a redução da violência doméstica, o fortalecimento da disciplina no trabalho, o investimento na própria família, o fortalecimento da posição da mulher na família e no mundo do trabalho, o aumento da alfabetização de adultos e valorização da educação, e ajuda para a recuperação de presos e dependentes químicos. Mas é importante lembrar, conforme aponta o estudo de David Smilde sobre o pentecostalismo na Venezuela, que nem todos têm a disciplina e os recursos para sustentar as consequências da conversão. Caso contrário, a violência familiar, o vício em drogas e outros problemas comuns que estão presentes em áreas urbanas de baixa renda na América Latina teriam desaparecido.

“Ele é crente!”

A experiência da conversão de Sandro ao cristianismo pentecostal pode parecer extrema, mas não é diferente da contata por muitos outros informantes que eu conheci. O contexto geralmente é o de uma condição de vida muito desfavorável que, a partir da entrada na igreja, geralmente se estabiliza e melhora.

Sandro nasceu em uma vila rural da Bahia e saiu da casa onde vivia com a mãe alcoólatra aos 11 anos. Morou em várias cidades, teve três filhos com parceiras diferentes, trabalhava fazendo atividades manuais e se tornou dependente de álcool e de cocaína. Quando eu o conheci com 40 anos, alguns anos após sua conversão, Sandro tinha uma rotina ativa no bairro. Ele trabalhava como pedreiro e paralelamente estava construindo a própria casa em um terreno ocupado em processo de legalização, e também uma igreja da mesma denominação a que ele pertencia próximo a sua casa. Ele tinha várias responsabilidades na igreja e também assumiu o cargo de presidente da associação de moradores do terreno invadido, tendo frequentemente que lidar com a polícia e também com criminosos.

Me lembrei da história de Sandro recentemente pensando na expressão cristã: — Jesus salva.

Um sábado, Sandro saiu de casa para ir participar de um culto. Já estava escuro quando ele montou na moto para descer a rua próxima sem pavimento nem iluminação. Era uma rua em declive de aproximadamente 800 metros e à distância, Sandro percebeu a aproximação de um SUV em alta velocidade vindo em sua direção. Ao se aproximar, o motorista do carro fez uma manobra brusca obrigando Sandro a parar a moto na lateral da rua. Ninguém mais estava por perto e o conjunto de luzes do carro o paralisaram. Sandro identificou vultos de pessoas encapuzadas e o som de armas apontadas para ele. O carro não tinha identificação, mas Sandro deduziu aquela era uma ação policial surpresa na área. O evento durou menos de um minuto e, dada as circunstâncias, Sandro pensou que fosse morrer. Mas eventualmente alguém do carro gritou: — “ele é crente, deixa passar.” E o carro deu marcha ré e seguiu seu caminho.

A expressão Jesus Salva geralmente se refere a outro tipo de salvamento, o salvamento da alma, mas nesse bairro e provavelmente em muitas outras periferias do Brasil, a expressão Jesus Salva tem também um significado literal. Sandro correu o risco de ser vítima de um fogo cruzado, como muitos pobres, particularmente negros e pardos, se não estivesse com as roupas — camisa, calça, gravata — do evangélico, o que o distinguiu como trabalhador.

Um pobre que “não sabe seu lugar”

A segunda motivação para estudar o fenômeno do cristianismo evangélico foi entender por que intelectuais, formadores de opinião e jornalistas, e o brasileiro mais escolarizado de modo geral, não se interessam por aprender sobre um fenômeno dessa magnitude no Brasil e que, conforme argumentei acima, traz consequências positivas em uma sociedade desigual como a nossa. O problema é maior do que o desinteresse pelo tema, é o preconceito consolidado pela ideia de que já se sabe o suficiente sobre evangélicos para entender que eles trazem consequências ruins para o país e que devem ser combatidos.

Sugiro, a partir da literatura robusta produzida por antropólogos que estudam as camadas populares brasileiras nas últimas décadas, que a rejeição ao evangélico tem um componente de preconceito de classe. Conforme escreveu a antropóloga Claudia Fonseca, em uma passagem muito citada do livro Família, Fofoca e Honra:

“De algum modo, o Brasil se apresenta como um caso extremo da sociedade de classes. … isso criou um sistema que, em muitos aspectos, pode ser comparado ao apartheid da África do Sul. Entre ricos e pobres, existe pouco contato: eles não moram nos mesmos bairros, nem usam os mesmos meios de transporte. Para uns, há escolas particulares, táxis, médicos a US$100 por consulta. Para outros, a escola pública sucateada, os ambulatórios, os ônibus. Em resumo, para muitos brasileiros, os únicos momentos de contato inter-classes se produzem na conversação com a faxineira ou durante um assalto. As barreiras de três metros de altura erigidas diante das casas burguesas são como uma metáfora do fosso quase intransponível entre os dois mundos.”

A ideia de que o preconceito no Brasil entrelaça classe e raça coincide, por exemplo, com análises do sociólogo Florestan Fernandes, publicadas desde os anos 1960. Ele explicou como o racismo brasileiro assume a forma de uma hierarquia gradativa de prestígio, baseada em critérios como educação formal, naturalidade, gênero, história familiar e classe social. A cor da pele de uma pessoa não é um impedimento explícito para ela prosperar, mas a sociedade filtra indiretamente pessoas provenientes de certos contextos socioeconômicos — que são mais acessíveis aos brancos — para certas funções e posições.

Quase metade de todos os evangélicos no Brasil ganha até dois salários mínimos mensalmente e apenas 2% recebem mais que dez salários mínimos, e 59% se declaram negros ou pardos (DataFolha 2019). Eles estão igualmente expostos a essa forma de preconceito de classe, junto com os outros milhões de brasileiros de baixa renda. Mas o evangélico pobre também é condenado, mesmo nos meios acadêmicos, por não aceitar a posição de vítima. Para a pesquisadora americana Susan Harding, os cristãos evangélicos são um tipo de “outro” frequentemente rejeitado pelos antropólogos por não se colocarem na posição de pessoas vulneráveis. Essa resistência em ser enquadrado como subalterno é um motivo para os intelectuais desprezarem os evangélicos, ao mesmo tempo que agem como porta-vozes dos indígenas, quilombolas e até dos pobres urbanos.

Para qualificar o debate

O objetivo do meu livro não foi negar ou ignorar as implicações que o crescimento do cristianismo evangélico ultraconservador traz ao país. Existem motivos para preocupação: o voto evangélico foi o responsável pela eleição do ultraconservador presidente Jair Bolsonaro em 2018 e muitas das igrejas que se tornaram megacorporações religiosas usam sua influência para eleger políticos que devem obediência aos líderes dessas mesmas organizações. Conforme escreveu o sociólogo Ricardo Mariano, a instrumentalização da fé com finalidade eleitoral se dá a partir do argumento de que a igreja e o plano evangelizador de Deus correm perigo: “o argumento de que ‘a liberdade religiosa está em xeque’ é um trunfo decisivo para defender candidaturas evangélicas nos próprios cultos”.

A bancada evangélica atualmente é um dos principais focos de apoio e de mobilização do governo Bolsonaro nas duas casas do parlamento brasileiro. Junto com a recuperação do espaço de influência no campo moral, a presença de evangélicos dentro do Estado ajuda a obter benefícios para o funcionamento e o crescimento das igrejas. O livro-reportagem da jornalista Andrea Dip registra a atuação da bancada para garantir as concessões de radiodifusão, manter a isenção fiscal das igrejas, obter espaços para a construção de templos e conseguir que eventos evangélicos sejam classificados como culturais para que possam se beneficiar de verbas públicas de incentivo. Mas mesmo que esse ativismo eleitoral de evangélicos pentecostais e neopentecostais seja uma prática comum, estudos como os de Ricardo Mariano e da antropóloga Jacqueline Teixeira, da USP, registram como muitos crentes resistem à manipulação eleitoral.

Como o cientista social David Smilde resumiu, “no nível das bases, os grupos evangélicos e pentecostais são com frequência a única forma de sociedade civil disponível às pessoas e podem ter um impacto local importante dando a essas pessoas um caminho para confrontar a violência e a injustiça nos seus contextos locais”. Como o sociólogo David Martin argumenta, o pentecostalismo é um fenômeno modernizador e que tem o potencial de elevar os pobres à classe média. Em sociedades onde a maioria dos pobres é de preto ou pardo, as igrejas evangélicas representam proteção, oferecem novas oportunidades e estimulam sentimentos de dignidade e respeito próprio — que muitas vezes não estão disponíveis em outros lugares — para aqueles que estão à margem de nossa sociedade.

ethnographer, digital media enthusiast and writer

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